quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Os Meninos - Juan José Plans




Sinopse

A Ilha de Tha, na costa da Espanha, é uma réplica do paraíso. Sol, mar, gaivotas, pescadores e paz. Malco, um escritor de contos infantis, conheceu-a há muitos anos, ainda menino. Agora resolve voltar, de férias, em companhia de Nona, sua mulher, grávida do terceiro filho. A ilha continua linda, com seu casario branco da arquitetura mediterrânea. O mesmo sol, o mesmo mar, a mesma paz. Mas há alguma coisa estranha naquele local. Onde estão os adultos?

Resenha

Crianças malvadas é um tema que sempre me fascina, pelo inusitado, pelas discussões que são geradas a respeito das causas da violência e pelo potencial que essas histórias guardam. Fico sempre curioso em saber qual será a abordagem e no caso desse livro a premissa me surpreendeu bastante, principalmente em relação aos motivos que levavam essas crianças a agirem com tamanha agressividade. Algo bem diferente de tudo o que já li em relação a esse tema.

Apesar do livro se iniciar com várias cenas aparentemente desconexas, temos como fio condutor Malco e Nona, um casal que decide passar uma temporada numa ilha onde o marido viveu parte de sua infância. Eles já tem um casal de filhos, que ficaram na cidade, e ela se encontra novamente grávida. O autor vai dosando o terror aos poucos, de maneira bastante habilidosa com vestígios da violência surgindo ao redor do casal protagonista até que os acontecimentos se precipitam e eles têm de encarar uma realidade terrível. Surgem então várias situações inusitadas e à cada capítulo a tensão aumenta. E mesmo com o texto pomposo e os diálogos ridículos a leitura alcança um ritmo contagiante.

Porém se teve algo que me incomodou demais foi o machismo implícito no livro. Enquanto o marido era retratado como o fodão, que nos momentos críticos agia com sangue frio e escapava das situações mais difíceis sempre tomando as melhores decisões, a esposa era descrita como uma verdadeira toupeira. Tanto que num descuido ela quase causa uma explosão num posto de gasolina. Sem falar que a pobre coitada era tratada como um estorvo pelo marido, que demonstrava uma impaciência cada vez maior com ela, sem nem levar em consideração o fato da coitada estar grávida. Apesar de escrito nos anos setenta e por isso relativamente recente, o livro passa uma misoginia atroz, principalmente pelo fato de retratar um casal jovem, instruído, que vivia numa grande cidade e portanto deveria ser menos estereoripado.

Mas com exceção desses detalhes, é uma leitura gostosa, envolvente e ágil. Conforme é mencionado no prefácio, o livro já foi concebido com a intenção de se tornar um roteiro, tanto que virou filme, por isso a linguagem é cinematográfica. As cenas se desenrolam numa sequência bem dinâmica, fazendo com que as páginas voem sem que se perceba até chegar a um final impactante. Não é uma obra excepcional, mas para quem gosta do tema de crianças malvadas, vale a pena incluir mais essa curiosidade na coleção.