segunda-feira, 22 de agosto de 2016

O Fabuloso Círculo do Livro


Se você já entrou num sebo ou numa biblioteca pública, com certeza já topou com varios daqueles livrinhos de capa dura. E tenho certeza de que a maioria de vocês tem pelo menos um em casa. A Círculo do Livro foi fundada no Brasil em março de 1973 através de um acordo firmado entre o Grupo Abril e a editora alemã Bertelsmann. As vendas eram efetuadas no sistema de clube, onde a pessoa era indicada por algum sócio e, a partir de então, recebia uma revista quinzenal com dezenas de títulos a serem escolhidos. O novo sócio teria então a obrigação de comprar ao menos um livro no período.

A ideia deu tão certo que em 1982, as vendas alcançaram cinco milhões de exemplares e em 1983 a editora anunciou um quadro de oitocentos mil sócios espalhados por 2,850 municípios brasileiros. E os motivos desse sucesso eram tantos que dá pra se fazer uma, lista:

¤ A diversidade de títulos era de encher os olhos. A maioria do catálogo era composto por best sellers do momento, com nomes que bombavam na época, como Sidney Sheldon, Harold Robbins Robin Cook, Stephen King, Jacqueline Susann. Hoje seria o equivalente a você receber um catálogo com os maiores sucessos de editoras de peso como a Record, Suma das Letras, Dark Side, Intrínseca e poder comprar esses livros num valor muito abaixo do mercado em edições caprichadas.

¤ A qualidade das edições era outro grande diferencial. Os livros eram todos em capa dura, cuidadosamente encadernados, o papel era resistente, com folhas espessas e quase sem porosidade.

¤ A última página, intitulada " O Autor e Sua Obra" trazia uma pequena biografia dos escritores, resumida, mas mesmo assim com muito mais detalhes que as contidas nas orelhas dos livros de outras editoras. Era muito legal conhecer fatos curiosos sobre a vida do autor cujo livro você acabava de ler. Apesar de que eu sempre lia essa parte antes. Além disso, como esses livros não tinham sinopse na contracapa, essa seção dava uma ideia do gênero que o autor escrevia.

¤ A diversidade dos títulos era outro grande atrativo. Quando se fala em aderir a um clube de livros, assumindo o compromisso de adquirir pelo menos um exemplar por mês a gente logo pensa: "e se só vierem bombas pra eu escolher?" Mas no caso do Círculo, isso não acontecia, pois o catálogo incluía não só os grandes bestsellers do momento, quanto muita literatura brasileira, além de alguns clássicos.

¤ E o mais importante: o preço. Os livros custavam cerca de um quarto do preço das publicações de outras editoras. Isso era possível devido à larga produção e por se tratar de um produto com público garantido.

Mas como tudo o que é bom tem de acabar, a Círculo do Livro teve o seu fim nos anos 90. A queda nos lucros fez com que a Bertelsmann vendesse sua parte no negócio, levando a Círculo a encerrar suas atividades editoriais. A empresa, no entanto, continuou a funcionar como gráfica, sob o comando do grupo CLC, até finalmente set vendida em 2000 à multinacional RR Donnelley.


Mas não são apenas os sócios que tem uma história de amor com essa coleção. Muita gente já adquiriu inúmeros exemplares dessa coleção em sebos. Foi através deles que entrei em contato com muitos dos autores de quem sou fã. E quando entro num sebo e me deparo com diversas edições do mesmo livro, geralmente escolho a da Círculo, não apenas pelas qualidades que mencionei acima, como durabilidade e tal, mas porque  dá a impressão de que a história te envolve mais quando é impressa naquela edição. Sei lá, passa uma intimidade tão grande entre você e o livro. Mesmo que algumas das capas sejam horrendas, muito devido ao estilo da época, as edições da Círculo do Livro tem a minha preferência. Tanto que minha edição de Um Estranho no Espelho de Sidney Sheldon, que tenho há quase vinte anos, somado isso ao fato de eu já tê-la comprado usada, está judiada, mas mesmo que eu compre uma nova, não me desfaço dela.

Atualmente anda rolando pelas redes sociais um novo projeto que tem sido comparado ao Círculo, no qual o sócio paga 80 dilmas, isso mesmo OITENTA reais, para adquirir um livro surpresa por mês. Dizem que o livro vem acompanhado de viários mimos como marcadores, enfeites, bottons e tal, mas pagar essa grana toda por um livro que você nem sabe qual é não é um bom negócio. Me desculpem os organizadores.

Acho que o Círculo do Livro hoje seria algo impraticável. O mercado editorial da atualidade é muito diferente do que existia naquela época e a disputa por espaço é grande demais para que as editoras cedam os direitos de seus principais autores para um selo que venderia os livros num valor tão inferior. Mas é inegável a importância que essa editora teve para popularizar, qualificar e solidificar a cultura do best seller no Brasil. E, apesar do clube não mais existir, suas crias estão espalhadas por toda a parte, em estantes de todo o Brasil, guardando um pedaço dessa história da qual muitos leitores fizeram parte.