sexta-feira, 23 de junho de 2017

Coração de Aço - Brandon Sanderson


Sinopse

Tudo começou com Calamidade, que surgiu nos céus como uma estrela de fogo, e que ninguém sabe o que é realmente. Seus efeitos, entretanto, podem ser sentidos algum tempo após seu surgimento: pessoas comuns passam a ter poderes que desafiam as leis da física e da lógica. E surge: os nomeados Épicos não apenas se tornam poderosos, mas parecem perder toda sua humanidade no processo, deixando o resto da população à mercê de suas vontades. Dentre eles o mais poderoso é Coração de Aço, um ser invulnerável a qualquer tipo de ataque e com capacidade de manipular e transformar objetos inorgânicos em metal, que decide tomar a cidade de Chicago e ali estabelecer seu império. Dez anos se passam e os Épicos governam com poder absoluto. Não existe nada e ninguém que possa impedi-los. A exceção a essa regra são os Executores, humanos normais, munidos de tecnologia de ponta que se utilizam de táticas de guerrilha para derrubar e matar o maior número possível de Épicos. E o grande objetivo de David, um jovem criado em um orfanato de Nova Chicago é juntar-se aos Executores e destruir Coração de Aço, o homem que matou seu pai e mudou sua vida para sempre.

Resenha 

O autor usou um elemento clássico das histórias em quadrinhos, mas ao invés de seguir por um caminho lúdico, onde o poder é usado de maneira nobre, mandou a real usando aquela tão conhecida máxima de que se o poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente. Brandon nos apresenta um mundo assolado pelo desmandos dos Épicos, pessoas que ganharam super poderes e passaram a oprimir os seres humanos comuns. As pessoas vivem escondidas como que em estado de sítio, esgueirando-se pelos subterrâneos da cidade, tentando sobreviver num mundo onde até mesmo a luz do sol lhes foi roubada.

Mas nem todos se curvam pacificamente ao poder implacável dos Épicos. Há seres humanos que resistem e, mesmo sem nenhum poder especial, se dedicam a levar esse reinado de super humanos à ruína. Eles são os Executores. E é planejando se tornar um deles para vingar a morte de seu pai que David passa sua vida estudando essas criaturas. Achei o protagonista um garoto adorável. Mesmo em sua obsessão em encontrar a fraqueza de seu inimigo ele não perde sua boa índole, sua ética e muito menos seu humor. Sua mania de criar metáforas é impagável e muito mais divertida ainda é sua reacão quando alguém faz uma metáfora melhor que a dele. Já Megan, que seria seu par romântico na história, é um verdadeiro porre. Garota chata, mal humorada, que se ressente de cada atitude de David, principalmente ao perceber que ele está ganhando a confiança de Professor, o líder dos Executores. Não consegui torcer pelo casal.

É muito bacana acompanhar o convívio entre os Executores, seus pequenos conflitos, os maneirismos de cada personagem e desvendar pouco a pouco seu passado. Mas fantástica mesmo é a maneira como eles descobrem a fraqueza de cada Épico, na maioria das vezes através das anotações de David. O grande trunfo do livro é justamente o mistério que há em torno do ponto fraco de cada Épico e a maneira engenhosa como os Executores usam essa fraqueza para destruí-los assim que as descobrem. Cada cena de ação é um turbilhão de adrenalina.

Uma decepção foi descobrir que Coração de Aço tem uma participação bem pequena no livro. Ele é mencionado durante toda a narrativa, conhecemos através dos diálogos dos personagens as histórias de horror que envolvem o Épico, mas como a narrativa é em primeira pessoa pelo ponto de vista de David, o vilão quase não aparece. Porém, compreendo que o mistério envolvendo o vilão, principalmente qual é sua fraqueza, é o maior atrativo do livro e, conhecê-lo com mais intimidade poderia tirar seu fascínio. E um ponto que me incomodou bastante foi uma informação sobre os Executores que é revelada nas páginas finais. Não posso dar detalhes sob risco de spoilers, mas foi algo que contrariou a premissa do livro. Tirando esses pequenos detalhes o livro é incrível, com um confronto final espetacular, sem falar na revelação genial sobre a tão intrigante fraqueza de Coração de Aço. Quero muito ler toda a trilogia.





quinta-feira, 22 de junho de 2017

A Vida em Tons de Cinza - Ruta Sepetys


Sinopse

1941. A União Soviética anexa os países bálticos. Desde então, a história de horror vivida por aqueles povos raras vezes foi contada. Aos 15 anos, Lina Vilkas vê seu sonho de estudar artes e sua liberdade serem brutalmente ceifados. Filha de um professor universitário lituano, ela é deportada com a mãe e o irmão para um campo de trabalho forçado na Sibéria. Lá, passam fome, enfrentam doenças, são humilhados e violentados. No entanto, aquele ainda não seria seu destino final. Mais tarde, Lina e sua família, assim como muitas outras pessoas com quem estabeleceram laços estreitos, são mandadas, literalmente, para o fim do mundo: um lugar perdido no Círculo Polar Ártico, onde o frio é implacável, a noite dura 180 dias e o amor e a esperança talvez não sejam suficientes para mantê-los vivos.

Resenha

Diferente da maioria dos livros sobre a Segunda Guerra, que se focam mais na Alemanha e nos horrores do nazismo, A Vida em Tons de Cinza fala sobre a invasão da Rússia aos países bálticos, o que deu início à União Soviética. Através da tocante história de uma família lituana deportada para a Sibéria, a autora relata toda a violência que serviu de prólogo para uma era de horror que tomou conta desses países.

Lina é uma adolescente de quinze anos, apaixonada pela arte, que retrata seus sonhos, anseios e paixões através de seus desenhos. Até que a brutal chegada dos russos interrompe sua vida até então perfeita. O livro já se inicia com a casa de Lina sendo invadida pelos soldados, que sem nenhuma explicação, arrastam sua família como animais para a carroceria de um caminhão, 
lançando-a numa verdadeira jornada rumo ao inferno.

A narrativa se divide em três partes. A viagem de trem que os prisioneiros de guerra fazem rumo a um campo de trabalho. A chegada e instalação deles nesse campo. E sua expatriação para a Sibéria, ou seja, para o fim do mundo. De todas as fases do livro, a melhor, mais dramática e envolvente é quando eles estão no campo de trabalho. Lá as relações entre os personagens se consolidam. Os prisioneiros criam fortes laços de amizade e essa é a única arma que eles têm contra os russos. A união lhes dá força para enfrentarem o frio, a fome e o desespero. Cada personagem reage de modo diferente diante das adversidades. O " Careca", com seu pessimismo; Jonas, no início uma criança inocente, mas que em pouco tempo amadurece e enfrenta com resiliência um sofrimento que parece não ter fim; Andrew com sua integridade, coragem e força; Elena
com sua dignidade inabalável. E a própria protagonista Lina, com sua inesgotável esperança, a despeito da realidade lhe dizer a todo instante que deve desistir. Uma artista que busca refúgio em seus desenhos, nos quais retrata toda aquela miséria humana.

A autora tem um texto sensível, transmitindo uma profunda melancolia conforme narra diversos tipos de violência que os personagens sofrem. Não é um livro deprimente, mas comovente. É difícil segurar o choro ao ler sobre as condições sub humanas nas quais aquele povo vivia. O livro faz refletir muito sobre a natureza humana. Será que a guerra, as adversidades e, principalmente, a impunidade nos transformam em monstros ou apenas revela quem somos de verdade? Afinal os russos são considerados os mocinhos na Segunda Guerra, são quem ajudaram os aliados a derrotarem a Alemanha. E no entanto seus soldados invadiam propriedades e escravizavam os cidadãos, agindo com uma crueldade repugnante. Mas assim como a autora explora esse lado vil da humanidade, também exalta a nobreza de sentimentos, falando de fraternidade, amor e perdão. Uma triste, mas linda homenagem a esse povo que mesmo após o fim da guerra teve de guardar silêncio durante décadas sobre esse episódio tenebroso.


segunda-feira, 19 de junho de 2017

Sete livros que me assombraram

Alguns livros fazem mais do que nos emocionar, intrigar, desafiar ou mesmo nos horrorizar. Eles causam reações quase físicas tamanho o impacto que tem sobre nós. E mesmo que sejam passageiras (graças a Deus), essas sensações tornam a leitura marcante em nossas vidas.


Quando os Adams Saíram de Férias

O livro conta a história de uma babá que ao acordar se descobre amarrada à cama por um grupo de crianças, aquelas que ela cuida e seus amigos. Até então isso não parece nada assustador, apenas uma brincadeira inocente. Mas conforme o tempo vai passando e a brincadeira de mau gosto vai dando lugar à torturas físicas eles percebem que foram longe demais e o medo das consequências os impede de soltar a jovem. O que me causou mal estar durante a leitura foi a frieza dessas crianças, principalmente da mais velha, que na verdade era uma adolescente. O livro transmite uma desesperança tão grande na raça humama, que fiquei deprimido durante dias e me desfiz da edição que eu tinha. É um livro que, apesar de entreter, te faz mal, parece que rouba sua fé na humanidade. Não leria de novo.


Fábrica de Vespas

É a história de um garoto que apresenta sinais de psicopatia e uma de suas primeiras vítimas é justamente uma criança de cinco anos. A execução desse crime foi a cena mais dolorosa que li nos últimos tempos. À medida que os planos do jovem assassino progrediam e eu via aquela criança se encaminhar para uma armadilha, entrei em desespero, pois não queria ler aquilo. E o que torna aquele ato tão repulsivo é a maneira como o psicopata se usa da inocência dessa criança para cometer sua atrocidade.


Represália

Outra história de horror envolvendo uma criança. Esse livro faz parte da quadrilogia O Ciclo do inimigo, que fala sobre uma criatura maligna que eventualmente surge na Terra para cometer suas terríveis atrocidades. Apenas o último não chegou ao Brasil, mas de todos os que li Represália é o que mais me impressionou. O livro tem um suspense psicológico dos mais bem elaborados e explora com  perversidade um relacionamento sadomasoquista entre uma solteirona e um rapaz misterioso. Quando falo em sadomasoquismo, não é no sentido sexual, mas psicológico. Essa relação doentia torna a leitura fascinante, mas o que me assombrou no livro foi um episódio que não tem muita relação com o tema principal: a cena de uma criança sendo enterrada viva. A atmosfera de terror que cerca esse momento do livro é de causar arrepios e entre tantas maldades cometidas pelo vilão ao longo da saga, foi a que mais me marcou.


Misery

Sei que Stephen King tem livros muito mais assustadores do que esse, mas o que, na minha opinião, torna Anne Wilkes muito mais temível que qualquer vilão sobrenatural de King é que ela é real. Ela existe sob muitos nomes diferentes por aí. É possivel que tenhamos cruzado com dezenas dela ao longo da vida sem perceber. Pessoas sádicas, mergulhadas tão profunfamente em seu egocentrismo que são capazes de de torturar outro ser humano para conseguirem o que querem. Traduzido no Brasil nos anos oitenta como Angústia, teve nesse título o mais apropriado, pois o livro passa essa exata sensação, ao narrar os momentos de tortura que uma vítima indefesa passava nas mãos de um calamidade em forma humana. Leitura maravilhosa, mas fiquei aliviado quando terminou.


Os Condenados

É uma história de fantasma, na qual o jovem Danny Orchar escapa vivo de um incêndio, mas sua irmã gêmea Ash não tem a mesma sorte e retorna do mundo dos mortos para infernizar a vida de seu irmão. Livros com temas sobrenaturais costumam me assustar menos do que histórias realistas, essa lista é um bom exemplo disso. Mas ocasionalmente me deparo com exceções e foi o caso da obra de Andrew.  Ash é uma garota perversa, que emana maldade e de maneira sutil manipula as pessoas para satisfazer seu sadismo. E se viva ela já era assustadora, depois de morta ela se torna uma praga. Ela não dá trégua às suas vítimas, perturbando-os a todo instante, causando pequenos acidentes que tiram a paz de toda uma família. Sem falar em suas aparições, que são terrificantes. Apesar do autor não se importar muito com estilo, em criar atmosferas, a naturalidade de seu texto, a assertividade em suas descrições, ele usa de poucas palavras pra descrever um cenário, mas é muito preciso, são arrebatadores o suficiente. Uma leirura que me deixou apreensivo.


Tannöd

Baseado num fato real, conhecido pela imprensa como o misterioso caso dos “Assassinatos de Hinterkaifeck”, o livro fala sobre uma família  que é encontrada morta numa fazenda na Alemanha, a Tannöd do título. Não há qualquer indício do assassino e muito menos do motivo. Os moradores da região se perguntam o que aconteceu naquele lugar e o enredo se desenvolve através do ponto de vista de diversos personagens ligados de alguma forma à vítimas da tragédia. Foi um livro que me deu arrepios. O texto direto, como se algum conhecido estivesse lhe contando a história dá um tom de realidade muito forte à leitura, como se todo aquele horror houvesse acontecido bem próximo de você. E a ideia de uma família inteira ser dizimada, e ainda mais de maneira tão violenta, é muito desoladora. A atmosfera do livro é densa, um clima de terror, como se algo de sobrenatural pairasse sobre os acontecimentos, mesmo que saibamos que não se trata de uma obra de fantasia. Sempre tem alguém vislumbrando algum vulto, ouvindo sons estranhos, percebendo que há algo errado. Alguns trechos são de gelar o sangue. Uma leitura rápida, mas dilacerante.


A Invasão dos Ratos

Uma grande metrópole é atingida por milhares de ratos, que organizam um ataque orquestrado contra a população que fica à mercê de um inimigo que tem a vantagem de estar por toda parte. Ratazanas enormes, que não poupam ninguém em seus ataques de ferocidade. Essas criaturas estão por toda a parte e logo a cidade se torna refém desses roedores. Essa premissa já é o suficiente pra deixar qualquer leitor aterrorizado. E pra mim que tenho verfadeira ojeriza a esses bichos foi pior. As cenas em que as pessoas são encurraladas por essas criaturas e devoradas sem chance de defesa são de embrulhar o estômago. Um livro de horror explícito, cuja trama é de uma simplicidade genial, usando nada mais que o medo que nós temos de que essa praga urbana com a qual convivemos se transforme em nosso predador.







segunda-feira, 5 de junho de 2017

Diário de Uma Escrava - Rô Mierling


Sinopse

Laura é uma menina sequestrada e jogada no fundo de um buraco por  um maníaco. Ela vê sua vida mudar da noite para o dia, e passa a descrever com detalhes sinistros e íntimos cada dia, cada ato, cada dor que o sequestro e o aprisionamento lhe fazem passar. Estevão é homem casado, trabalhador, mas que guarda em seu íntimo uma personalidade psicopata. Ele percorre ruas e cidades se apossando da vida de meninas ainda muito jovens, pois dentro de si uma voz afirma que é dele que elas precisam. Mergulhando fundo nessa fantasia, ele destrói vidas, famílias e sonhos, deixando atrás de si um rastro de dor e morte.

Resenha

Diário de uma Escrava foi lançado originalmente no wattpad e bombou, ultrapassando a marca de um milhão de downloads. O tema, além de instigante como literatura é também de grande interesse social, afinal a naturalidade, pra não dizer descaso, com que o desaparecimento de jovens e crianças é tratado no nosso país é revoltante. O livro se divide entre a narrativa da protagonista, confinada num porão há anos após ser sequestrada por um maníaco, em primeira pessoa e a de vários outros personagens, entre eles muitas vítimas desse mesmo criminoso, em terceira pessoa. A narrativa de Laura, composta como se fosse um diário é forte, intensa e dolorosa de se ler. Uma narrariva fluída que discorre com desespero sobre os abusos constantes que a jovem sofre nas mãos de seu algoz. A solidão, a desesperança que vai aumentando conforme os anos passam e ninguém aparece para salvá -la, a sua reação de horror diante da infindável capacidade de seu captor em inventar novas maneiras de torturá-la, tudo isso é transmitido com tanto realismo que a leitura é sofrida. Não é um texto muito amadurecido, mas há um certo vigor na escrita.

Já a narrativa em terceira pessoa é muito tosca. Um texto fraco, inconsistente, apressado. As histórias das outras vítimas do maníaco até que são boas, mas são interrompidas abruptamente e não são mais retomadas. Ou seja, acabam não tendo relevância nenhuma no livro como um todo. É tudo muito entrecortado, com personagens superficiais e cenas mal escritas. Sem falar em alguns trechos em que a autora tenta passar emoção, mas o resultado é de um sentimentalismo que chega a ser cômico, como o do namorado lamentando o desaparecimento de Laura. Fiquei espantado com a falta de habilidade da a autora em manter o mesmo nível de escrita durante toda a narrativa, já que se trata de uma experiente profissional no mundo acadêmico.

Mas esses defeitos não teriam tanta importância se o livro pelo menos tivesse um enredo, o que não é o caso. É só violência, violência e mais violência. Às vezes parece que a autora não sabia mais o que inventar para chocar o leitor. Gosto de livros com crimes violentos, mas certas cenas precisam ter um propósito dentro da trama e não estar ali só pra causar impacto. O problema é que nesse livro não há uma trama. Não tem desenvolvimento, é a mesma sequência de agressões e abusos do começo ao fim. Tanto que muitas cenas poderiam ser descartadas e não influenciaria em nada no entendimento da narrativa.


Quanto ao desfecho, senti muita raiva num primeiro momento, mas ao ler as notas finais da autora, compreendi seus motivos por ter dado aquele destino à sua protagonista e acabei reavaliando minha opinião. A autora usou o final para abordar um aspecto muito mal compreendido no que se refere a reação das vítimas diante de um sequestro. Com exceção de uma coincidência absurda que acontece nas últimas páginas, o final foi uma das poucas coisas que se salvaram. O livro tem pouquíssimo conteúdo para tanto alarde. A autora pode até ter tido a intenção de fazer um protesto contra a indiferença com a qual o mundo trata o frequente desaparecimento de crianças e adolescentes no Brasil, mas acabou se perdendo por não ter uma boa história pra contar.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Não Fale com Estranhos - Harlan Coben



Sinopse 

O estranho aparece do nada e, com poucas palavras, destrói o mundo de Adam Price. Sua identidade é desconhecida. Suas motivações são obscuras. Mas suas revelações são dolorosamente incontestáveis. Adam levava uma vida maravilhosa ao lado da esposa, Corinne, e dos dois filhos. Quando o estranho o aborda para contar um segredo estarrecedor sobre sua esposa, ele se questiona se tudo o que  construiu teria sido tudo uma grande mentira. Assombrado pela dúvida, Adam decide confrontar a esposa e a imagem de perfeição que criou em torno dela começa a ruir. Ao investigar a história por conta própria, acaba se envolvendo num universo sombrio repleto de mentiras, chantagens e assassinatos.

Resenha

Não preciso de nenhuma recomendação para ler um livro de Harlan Coben. É um dos meus autores preferidos e estava me sentido em débito com ele, pois estou bem desatualizado com suas obras. Deixei passar muitos de seus lançamentos, mas resolvi corrigir isso. Adquiri esse livro numa troca num sebo e o passei na frente de vários outros. O que me animou bastante na sinopse foi que ela não fazia menção a nenhum desaparecimento misterioso, elemento recorrente em suas obras. Não que isso me incomode, pois apesar dessa mania do autor em dar sumiço em seus personagens, suas tramas não se limitam a uma fórmula repetitiva. São histórias únicas, bem armadas e escondendo mistérios difíceis de desvendar.

O livro já começa tenso, com o protagonista sendo abordado por um estranho que lhe revela um segredo escabroso sobre sua esposa capaz de virar do avesso toda a harmonia de sua família. Achei Adam um personagem bem diferente dos protagonistas masculinos de Harlan. Um cara todo certinho, que põe em primeiro lugar o bem estar de sua família, muitas vezes cedendo até demais às vontades da esposa. O que não o torna fraco e sim uma pessoa flexível. Um homem íntegro, sensível e generoso.

No decorrer da narrativa vão surgindo outras tramas paralelas de pessoas vivendo o mesmo dilema de Adam, ou seja, descobrindo segredos horríveis sobre seus entes queridos através de um desconhecido. Essas outras histórias dão mais dinamismo à trama e me deram uma ideia do verdadeiro intuito desse estranho, que vive rondando pessoas de bem e arrasando com suas vidas. Até que um assasinato totalmente inesperado e brutal me desnorteou completamente. Não esperava que aquela pessoa fosse morta. E muito menos da maneira como aconteceu. O crime dá uma virada na trama e me deixou atordoado, porque não estava mais entendendo onde tudo aquilo ia levar.

Algumas coisas vão sendo resolvidas no decorrer da leitura, mas a solução final fica para as últimas páginas e vem de uma vez só, sem as costumeiras reviravoltas do autor. Desta vez Harlan segurou o esclarecimento do grande mistério até o final e o esclareceu de uma vez só, sem rodeios. Senti falta daquelas especulações que são feitas até chegar a solução verdadeira. Mas mesmo assim achei o desfecho bem surpreendente. As pistas estavam bem óbvias, mas viajei tanto na história que nem percebi. É um livro intenso, bastante violento, que mostra o quanto nossos erros podem se voltar contra nós ou pior, contra as pessoas que mais amamos. Quanto aos desaparecimentos, prefiro não dizer se acontece algum. Até porque isso nem importa tanto. É melhor vocês lerem e descobrirem.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Jane Precisa de Ajuda - Joy Fielding




Sinopse 

Uma mulher jovem e elegante caminha a esmo pelas ruas de Boston. Reconhece as ruas, os prédios, mas não consegue recordar seu nome, onde morava, nem quem era. Para piorar não sabe porque carrega dez mil dólares no bolso. Nem por que seu vestido está sujo de sangue. Sem documentos, resolve procurar a polícia, que a identifica como a esposa do Dr. Whittaker, um dos mais conceituados pediatras da cidade, que logo aparece para levá-la de volta para casa. Ele a cerca de carinho e calmantes, mas Jane consegue perceber que há algo de estranho. Lutando para manter-se lúcida, ela envereda numa trama cheia de suspense e ação para desvendar todo esse mistério.

Resenha

Descobri esse livro fuçando no skoob. Não conhecia a autora, mas fiquei louco pelo enredo. Esperava apenas um bom suspense psicológico, mas o livro superou em muito as minhas expectativas. Logo no início encontramos Jane perdida na rua, com dez mil dólares no bolso do casaco, sem ter a mínima ideia de quem ela mesma seja. Mas não tarda para que ela seja identificada num hospital e reencontre seu marido. Porém, o que parecia ser o fim de seus problemas, se mostra apenas o início de seu tormento.

Como o livro é narrado em primeira pessoa por Jane, eu sabia tanto quanto ela sobre seu passado. Ou seja, absolutamente nada. E assim como ela, tinha de acreditar, ou não, em tudo o que o marido lhe contava. Michael parece ser o marido perfeito. Atencioso, paciente, protetor, por isso é difícil duvidar de sua honestidade, mesmo quando surgem algumas incoerências em sua versão dos fatos que levaram a mulher a sofrer um colapso nervoso. Fiquei muito dividido, pois num momento achava que o cara fosse um mentiroso e em outro, acreditava que ele estava escondendo algo justamente para proteger a esposa. Isso porque em alguns flashs de memória, Jane demontra um comportamento que me fez duvidar de que ela era realmente uma vítima.

Mas mesmo com essa ambiguidade, não pude deixar de torcer pela heroína à cada passo que ela dava em sua busca pela verdade. A autora criou situações em que eu fiquei com o coração aos pulos, com Jane se esgueirando da vigilância contínua do marido, tentando descobrir algo de seu passado antes que ele a dopasse com doses maciças de remédios. Em alguns momentos o suspense chega a ser insuportável, dá vontade de pular as páginas pra saber logo o que vai acontecer.

Criei várias teorias sobre o mistério envolvendo Jane, mas em nenhuma delas os dez mil dólares, que ela levava no bolso do casaco quando se perdeu, se encaixava. E a explicação me deixou chocado.Talvez pelo tom leve e um tanto ingênuo da narrativa, eu não esperava que o livro guardasse uma temática tão forte. Principalmente pela época em que foi escrito. Hoje esse é um tema até que, apesar de não ser tão corriqueiro, também não é raro em livros policiais, mas no início dos anos noventa era pouco comum. Tudo isso fez do livro um dos meus favoritos, leitura repleta de emoção, com uma personagem que, apesar de meio chatinha em alguns momentos, me conquistou e um final do jeito que gosto, com tudo se resolvendo apenas nas últimas páginas. Quero ler todos os outros livros da aurora que saíram no Brasil. E gostaria muito que este tivesse uma nova edição, com uma capa mais caprichada que essa.





terça-feira, 16 de maio de 2017

O Bazar dos Sonhos Ruins - Stephen King


Sinopse

Mestre das histórias curtas, o que Stephen King oferece neste livro é uma coleção generosa de contos – muitos deles inéditos no Brasil.
Temas eletrizantes interligam os contos; moralidade, vida após a morte, culpa, os erros que consertaríamos se pudéssemos voltar no tempo. Uma generosa coletânea para os fãs pra quem busca terror e um pouco mais.

Resenha

O lançamento de um livro de contos de King pra mim é sempre um acontecimento especial. Apesar de não ser muito fã de histórias curtas, King é uma exceção. Gosto da maneira como ele consegue desenvolver narrativas tão bem estruturadas num espaço tão curto. Mesmo nos menores contos nada é corrido, os personagens se projetam de maneira incrível e com poucas palavras ele consegue nos sacudir.

Li alguns comentários negativos sobre esse livro, mas isso não me desanimou em nada, pois as opiniões sobre a obra do autor geralmente são muito controversas. É claro que há alguns contos ruins, mas isso acontece em praticamente todas as suas coletâneas. Em vinte historias é difícil mandar bem em todas.

Alguns temas como culpa, ética e a dificuldade em aceitar a morte, seja a própria ou a de um ente querido, surgem com bastante frequência no decorrer da leitura e é interessante acompanhar as diferentes abordagens de King. Geralmente suas coletâneas não trazem apenas contos de terror, mas achei esse livro bem mais versátil que os demais. King envereda por diversos outros gêneros como suspense, drama, humor e até mesmo poesia. Mas sempre com seu estilo marcante, nunca se descaracterizando.

Vou comentar sobre os contos que mais se destacaram, é claro que sem revelar nada sobre o enredo de nenhum deles, pois o legal de ler essas compilações é descobrir as histórias uma a uma.

O livro já começa com um conto incrível que é o "Milha 81", que traz uma deliciosa referência ao filme Christine. Uma história bem sangrenta de terror explícito, com uma suspense crescente. Mas o que mais me maravilhou nesse conto é a facilidade com que o autor traduz o universo infantil.

"A Duna" é um conto no qual King nos pega pela mão e nos conduz por uma história que nos intriga, nos choca e por fim nos surpreende. Achei o final genial.

"Garotinho Malvado" é, sem a menor dúvida, o meu conto favorito nesse livro. Traz um tema que eu adoro, embora por uma perspectiva diferente da que estou habituado a ler, e é uma história grandiosa, com humor, melodrama e muito terror. Um conto que merece uma adaptação. E desconfio de que esse garotinho tem algum parentesco com Pennywise.

" Uma morte" é um conto com o qual antipatizei no início, achei surtado demais, mas o final quase anedótico compensa.

" Moralidade" é um conto tenso, mostra o quanto a culpa pode transformar a vida de uma pessoa, corroendo a alma até que ela se esvazie.

"UR" é outro conto pelo qual fiquei fascinado. Uma história alucinante, que de um momento para o outro toma um ritmo febril, com uma corrida contra o tempo. Me deu até vontade de comprar um kindle. Quem ler entenderá o motivo.

"Indisposta", conto prositalmente previsível, como o próprio autor diz, mas presumir o que aconteceu sem que o próprio personagem admita é o que torna a história tão peculiar. Um dos muitos contos que discorre sobre a negação da morte. E apesar do tom cômico, achei-o bem triste.

Achei que não fosse gostar de "Blockade Billy" por se tratar do mundo do beisebol, mas o conto não demorou a me conquistar, me deixando cada vez mais intrigado com o mistério que envolvia um dos personagens.

"Obituários" é uma daquelas tramas que só King consegue escrever, com uma premissa que poderia ser desastrosa, mas em sua prosa se torna convincente.

Ufa, consegui falar de todos os contos que me impressionaram sem revelar nada. O livro traz contos para todos os gostos e por isso a leitura é tão emocionante, pois você não sabe o que vai encontrar na narrativa seguinte. Todos tem uma nota do autor no início, geralmente falando sobre de onde surgiu cada ideia. Uma bela coletânea, recheada de contos dramaticos, chocantes, divertidos e, é claro, assustadores.



domingo, 30 de abril de 2017

Boneco de Pano - Daniel Cole


Sinopse 

O polêmico detetive William Fawkes, conhecido como Wolf, acaba de voltar à ativa depois de meses em tratamento psicológico por conta de uma tentativa de agressão. Logo, sua ex-parceira de polícia Emily Baxter, pede a sua ajuda na investigação de um assassinato. O cadáver é composto por partes do corpo de seis pessoas, costuradas de forma a imitar um boneco de pano. Enquanto Wolf tenta identificar as vítimas, sua ex-mulher, a repórter Andrea Hall, recebe de uma fonte anônima fotografias da cena do crime, além de uma lista com o nome de seis pessoas – e as datas em que o assassino pretende matar cada uma delas para montar o próximo boneco. O último nome na lista é o de Wolf. Agora, para salvar a vida do amigo, Emily precisa lutar contra o tempo para descobrir o que conecta as vítimas antes que o criminoso ataque novamente.

Resenha

Sabe quando você conhece uma pessoa, a acha hiper legal, mas aos poucos ela vai mostrando várias defeitos e você passa a ficar com bronca dela? É o caso de Boneco de Pano. O livro já começa com muita ação, com um prólogo cheio de expectativa, tensão e uma explosão de violência. E a leitura prossegue nesse nível até mais ou menos a página setenta. Um tom sinistro, uma premissa que promete uma alucinante corrida contra o tempo e pitadas de humor negro. Personagens interessantes, cada um bem delineado, com características fortes. Sem falar na descrição do tal boneco de pano, uma bizarrice constituída por partes dos corpos de seis vitimas, que é de arrepiar.

Mas a partir do momento em que a proposta do livro é colocada e os personagens apresentados, o autor começa a perder a mão. A começar pela insistência em inserir piadinhas ridículas nos diálogos. Humor é sempre muito bem vindo em historias policiais, Agatha Christie, Robin Cook e Harlan Coben são grandes exemplos disso, mas no caso de Daniel as tiradas são tão ruins que chegam a dar vergonha alheia. Além do que muitas delas vem nos momentos mais inoportunos.

Quanto aos personagens, que pareciam tão fortes no início, foram se descaracterizando à cada capítulo. Todo mundo parece meio surtado, como se estivessem um tom acima. Personagens muito incoerentes, que em alguns momentos ficavam irreconhecíveis. Era como se o autor ao invés de construí-los, os desconstruía. O único personagem com quem simpatizei e que demonstrou uma certa evolução foi o perito nerd Edmund, que aos poucos vai ganhando o respeito da corporação conforme demonstra sua competência.

Há muitos pontos positivos também. O livro tem um ritmo incessante, não há cenas arrastadas. Há momentos de grande dramaticidade, o autor pinta cenas cinematográficas que realmente empolgam. A maneira como os assassinatos são cometidos são bem engenhosos. Mas o livro tem um estilo muito desigual, parece ter sido escrito por várias pessoas. Dava muita raiva quando o clima de suspense era quebrado por alguma das bobajadas que os personagens viviam cuspindo. O autor é muito desajeitado ao conduzir a trama, chegando a torná-la confusa em alguns pontos. O resultado foi uma leitura que pode até ter me cativado em alguns momentos, mas que depois de tantos tropeços, cheguei no final sem nem me importar mais com o mistério, só queria que acabasse logo.

sábado, 22 de abril de 2017

A Lista do Nunca - Koethi Zan


Sinopse 

Após um acidente de carro que sofreram quando ainda tinham dez anos, Sarah e Jennifer, amigas inseparáveis, passaram anos escrevendo o que chamaram de Lista do Nunca: uma lista de ações e atitudes que deveriam ser evitadas, a qualquer custo, para que se mantivessem a salvo.
Numa noite, no entanto, ao entrarem em um táxi, as garotas foram sequestradas por um adepto do sadismo, elas ficam acorrentadas em um porão com mais duas garotas por três anos. Dez anos depois de conseguir fugir, Sarah ainda tenta levar uma vida normal. Seu contato com pessoas é mínimo. Seu sequestrador, porém, está prestes a conseguir uma condicional e, mais do que preparar um belo discurso de vítima, Sarah sente que este é o momento de agir. Para isso, vai enfrentar seus terríveis traumas em busca de uma história que nunca fora revelada.

Resenha 

Esse livro foi uma indicação da Luna, leitora aqui do blog. Nunca tinha ouvido falar, mas li a sinopse, achei irresistível e logo fui atrás do livro. O resultado foi uma leitura rápida, absorvente, mas com alguns senãos. O livro começa falando brevemente sobre a convivência de Sarah e Jennifer, duas amigas que após um acidente apegam-se tenazmente à lista do nunca, uma série de regras que visam fazer com se que se sintam seguras. Porém, quando abrem uma exceção entrando num táxi, elas são sequestradas pelo motorista. Assim que isso acontece o livro dá um salto no tempo e encontramos Sarah já com seus trinta e poucos anos, sofrendo de uma grave fobia social, o que a obriga a viver confinada em seu apartamento com quase nenhum contato com o mundo exterior.

Mas chega o momento em que a protagonista precisa enfrentar seus medos e a iminente condicional de seu sequestrador é o que a motiva a sair dessa cápsula protetora e procurar uma maneira para que ele não saia da cadeia. É bem curioso acompanhar Sarah retornando ao mundo exterior, se aproximando das pessoas com hesitação e ainda presa às regras da lista do nunca. É como se ela estivesse engatinhando novamente, procurando se firmar num mundo que do qual fugiu. Mas a autora poderia ter explorado esse seu trauma com muito mais profundidade. Um assunto tão em voga ultimamente merecia ser abordado com mais ênfase.

O livro faz algumas incursões no passado, narrando o período em que Sarah, Christine, Tracy e Jennifer ficaram presas no porão do sequestrador. Essas cenas permeiam toda a narrativa, são bem curtas, mas dão uma boa ideia dos horrores que as jovens passaram nas mãos de um sádico durante anos. A autora também fala um pouco sobre a vida pregressa de cada menina, desde sua infância até o momento em que suas vidas se cruzaram com a do sequestrador.

O livro tem um texto ágil, uma narrativa bem dinâmica, cheia de reviravoltas, tanto que as páginas corriam sem que eu percebesse. Mas o problema é que tudo é muito superficial. Não há muito esforço na construção dos personagens, algumas situações de tensão se resolvem rápido demais, não dá tempo de se envolver, e a investigação é muito corrida. É uma trama muito interessante, foge de muitos clichês seguindo por um caminho inesperado, tem momentos bem aflitivos e a ação é do início ao fim. Por isso curti a leitura, é um livro que te prende, com uma história impactante, só deveria ser melhor elaborado. Senti pressa na escrita. Agradeço muito a sugestão e quem tiver outras peço que coloque aí nos comentários. É muito bom conhecer novos autores.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Toxina - Robin Cook


Sinopse

Toxina conta o drama de Kim Reggis, conceituado cirurgião cardíaco que luta para salvar a vida de sua filha que contrai a perigosa bactéria E. coli O157:H7, numa noite em que consome hambúrguer mal passado numa lanchonete. Desesperado e sem conseguir impedir a progressão da doença em sua filha, que está prestes a morrer, ele se lança em uma arriscada investigação que leva às indústrias de carne dos EUA e suas perigosas práticas. Ele e sua ex esposa agora estão juntos novamente para descobrir a origem e evitar a morte de milhares de outras crianças como sua filha, eles só não esperavam que os grandes chefões das indústrias pudessem agir de modo tão brutal para impedir que seus segredos venham à tona.

Resenha

Há muito eu queria reler algum livro antigo de Robin Cook, da fase em que ele ainda seguia sua eficaz fórmula de escrever suspense médico. Ele continua escrevendo nesse gênero, mas sua abordagem mudou tanto que é difícil encontrar em seus últimos livros os elementos que o consagraram. E com todo esse recente  escândalo sobre carne contaminada que repercutiu do Brasil para o mundo, eu não podia fazer uma escolha mais oportuna que Toxina. Obra escrita em 1998 e que, desde aquela época, já alardeava a negligência das indústrias de carne e os perigos que isso representa.

Kim é um dos protagonistas mais controversos da obra de Cook. Um cirurgião cardíaco que, mesmo tendo perdido parte de seus status
profissional devido à implantação de um novo plano de saúde no hospital onde trabalha, não perdeu sua arrogância. Mas quando sua filha adoece ele descobre que nem toda sua prepotência são suficientes para fazer com que a máquina do sistema de saúde trabalhe a seu favor. E a petulância se une ao desespero, o que resulta numa combinação catastrófica. Muitas vezes Kim perde o controle, deixando seu temperamento explosivo falar mais alto e, mesmo com toda sua prepotência, é impossível não sentir empatia pelo pai que desesperadamente procura salvação para sua filha e se depara apenas com uma muralha de detalhes burocráticos, ao invés de receber apoio daquele sistema ao qual ele serviu por tantos anos. Acho que todo mundo que necessitou do serviço público de saúde sabe o que é isso e, dessa forma, é difícil não se identificar com o personagem.

Quanto às informações sobre as condições de processamento da carne na indústria frigorífica, Cook não poupa nosso estômago. Alguns detalhes do que acontece desde o abatimento dos animais até o momento em que a carne chega em nossa mesa são tão repulsivos
que não dá pra olhar para um pedaço de bife da mesma maneira. O autor nos passa informações grotescas a respeito da negligência nos cuidados sanitários com a manipulação da carne, narra peculiaridades sobre o aproveitamento de material animal impróprio na produção de hambúrgueres e denuncia abertamente o acobertamento dos órgãos públicos que visam apenas seus próprios interesses.

O livro tem momentos bem dramáticos, com um suspense que vai surgindo aos poucos até explodir em momentos de grande adrenalina. Não há muito mistério no enredo, sabemos de antemão quem são os vilões e a emoção fica mais por conta das descobertas chocantes que Kim vai fazendo conforme segue em sua busca por justiça. O final é bem típico dos livros de Cook, com a ação se desenrolado até as últimas páginas até se alcançar um desfecho impactante. Confesso que o final me decepcionou um pouco, esperava uma reviravolta que até veio, mas de uma maneira diferente do que eu gostaria. Mas foi o melhor que o autor pode fazer para não tornar a conclusão algo fora da realidade, até porque o livro precisava ser verossímil para que o recado sobre toda essa negligência fosse dado. E posso dizer que funcionou, pelo menos até certo ponto. O livro não me convenceu a me tornar vegetariano, mas me alertou sobre os muitos perigos que envolvem o mau manuseio da carne.



segunda-feira, 17 de abril de 2017

Vida Dupla - S.J. Watson



Sinopse

Quando Kate é assassinada, a única forma que sua irmã Julia encontra de lidar com o luto é fazer o trabalho da polícia: procurar o assassino. Porém, ao descobrir que a irmã tinha perfis em sites de relacionamentos para conhecer homens e fazer sexo com eles, virtual ou não, o que antes era uma busca por um criminoso se torna uma exploração de suas fantasias sexuais mais secretas. Quando conhece o atraente Lukas, ela se entrega a um relacionamento que a faz se sentir viva novamente, após anos de um casamento onde a paixão há muito se apagou. Mas entrar nesse mundo coloca em risco seu casamento, sua família e sua própria vida.

Resenha

Apesar de se tratar claramente de um enredo policial, com um assassinato misterioso e tudo mais, no início do livro todo o clima de suspense é afogado pelos dilemas da protagonista, o que torna a narrativa bastante lenta. Julia é uma mulher de trinta e poucos anos que tem uma vida financeira estável, faz alguns bicos como fotógrafa mais como hobbie do que por necessidade, tem um casamento morno e um filho adotivo, que na verdade é seu sobrinho, filho de sua irmã, com quem tem uma relação conflituosa. E são esses desentendimentos que a fazem se remoer de culpa quando descobre que sua irmã foi assassinada. É totalmente justificável esse sentimento, o problema é que Júlia se culpa por tudo durante o livro inteiro. Ela se culpa por ter se afastado da irmã, se culpa por trair o marido, se culpa por mentir para o amante. Seu discurso é uma interminável ladainha de autorecriminação que ao invés de me fazer sentir empatia pela personagem, só me deixou irritado. Por todos esses dilemas o início do livro me exigiu perseverança pra continuar. Não que seja arrastado, mas a ação é mais psicológica. Acompanhamos a dor de Julia com a morte da irmã, sua decisão de investigar por conta própria seu assassinato ao descobrir que ela se encontrava com homens que conhecia pela internet e sua incursão nesse mundo com o qual não tem nenhuma familiaridade. Em sua narrativa em primeira pessoa a personagem compartilha conosco seus receios, suas descobertas e enfim os prazeres que escondem essa sua aventura.

Lá pela terceira parte o ritmo do livro começa a intensificar e o suspense então só aumenta. Muitos acontecimentos são previsíveis, mas não de uma maneira que me fizesse perder o interesse pela trama e sim no sentindo contrário, aguçando ainda mais minha curiosidade. Sabia que determinado fato aconteceria, mas queria saber quando, como e qual seria a reação dos personagens. E muita coisa me pegou de surpresa também. Foi agoniante acompanhar a protagonista se emaranhado cada vez mais na teia de seus próprios erros, presa numa armadilha devido sua imprudência, num jogo em que cada passo podia representar a sua destruição e a de sua família. Por muitas vezes xinguei Julia por ser tão tola a ponto de se envolver daquela forma com um completo desconhecido, por não questionar se o que ele dizia sobre si mesmo era verdade, e de manter o relacionamento mesmo quando suas desconfianças começaram a surgir. Mas em outros momentos compreendia que sua ingenuidade não era burrice, que até as pessoas mais espertas estão sujeitas a passar por tal situação.

Quanto ao final, acertei algumas coisas, outras me pegaram de surpresa, mas em relação ao assassinato da irmã de Julia ficou tudo muito bem explicado. Não houve nenhuma ponta solta, achei a solução plausível, o problema foi o destino dos personagens. O livro se encerra numa cena muito tensa, cujo desfecho fica em aberto. Em livros policiais não tenho muito interesse em saber o que aconteceu com os personagens depois que tudo se resolve. Pra mim tanto faz quem ficou com quem, que rumo fulano seguiu na vida ou como se recuperou de um trauma. Mas nesse caso a cena tinha um dilema forte e foi cortada abruptamente. Me senti no vácuo quando terminei a última página. Mas não vou detonar o livro por causa disso. Essa falta de desfecho não é um mero detalhe a ser descartado, o autor poderia ter se esforçado um pouco mais para concluir seu livro de modo digno, mas isso não apaga as boas horas de leitura que a trama me proporcionou.

Além disso, o livro é um grande alerta sobre os perigos que se escondem por trás das redes sociais. Não dá nem pra afirmar que somente o uso indevido da internet nos deixa vulneráveis, pois todo o cuidado que possamos ter nem sempre é o bastante quando há alguém do outro lado com intenções maliciosas. Mostra o quanto ações aparentemente fúteis, como postar uma foto no facebook, usar um localizador no celular ou acessar um site de relacionamento nos deixam expostos.




segunda-feira, 10 de abril de 2017

Sete piores thrillers que li na vida


Nem sempre o livro é tudo aquilo que esperávamos. Passamos por muitas decepções em nossa vida de leitor. Em alguns casos, a leitura se transforma num castigo e quando você termina e apenas constata que o livro era ruim de verdade, dá uma revolta pelo tempo perdido. Como todo leitor, já tive muitas decepções literárias, mas quando se trata de um thriller, meu gênero favorito, a dor é maior. Por isso vou compartilhar com vocês um pouco dessa minha sofrida experiência. Os sete piores momentos da minha vida de leitor. 

Vingança da Maré

Como pode uma autora estrear na literatura com uma obra prima que foi o suspense psicológico No Escuro e no segundo livro nos presentear com um fiasco sem tamanho? Ela praticamente só fala sobre aulas de poledance, com uma protagonista nada carismática e um enredo onde quase nada de importante acontece. Um livro que, devido as minhas altas expectativas tendo como base o anterior, eu defino como broxante. Como o terceiro livro, Restos Humanos, não foi ruim, acredito que tenha se tratado de um mero escorregão em sua carreira e vou relevar. Mas que ela não faça mais isso.


Indo Longe Demais

A premissa desse livro é sensacional. Uma mulher que passa por uma grande tragédia e então decide abandonar a família e recomeçar sua vida numa outra cidade, com uma nova identidade. Mesmo tendo lido resenhas negativas, quis conferir, pois não acreditava que o livro pudesse ser ruim. Mas é e muito. No comeco até que estava gostando, mas conforme ia avançando a leitura fui descobrindo que o livro só dava voltas e não chegava a lugar nenhum. Só terminei para saber qual era o tal segredo da protagonista e fiquei indignado quando topei com uma informação mentirosa da sinopse. Querem enfeitar o enredo bem, mas não precisa mentir.


Em Busca de Um Novo Amanhã 

Assim que soube do lançamento desse livro fiquei com muita raiva da autora em fazer uma continuação do clássico Se Houver Amanhã, um dos livros de maior sucesso de Sidney Sheldon. Mas, mesmo sendo contra a sequência a curiosidade falou mais alto e não resisti em saber o que ela faria com os personagens tão queridos da obra original. E o livro foi bem pior do que eu esperava. Tilly ignorou a cronologia dos acontecimentos, trazendo a história que se passava nos anos oitenta para os dias atuais, descaracterizou personagens, tornando-os apáticos, e nem se deu ao trabalho de tentar imitar o estilo de escrita de Sidney, como fez com os livros anteriores da marca Sheldon. Mas o livro não é apenas ruim como sequência de um clássico. É ruim por si só. Os roubos não tem emoção, golpes amadores e a investigação dos assassinatos é praticamente abandonada no decorrer da narrativa, pra ser retomada no final, com a identidade do assassino não me surpreendendo nem um pouco.


Cuco

A sinopse do livro me encantou. Como não se interessar pela história de uma mulher que acolhe em sua casa a amiga que ficou recentemente viúva e aos poucos a vê tomando o seu lugar? A escrita de Julia é primorosa, tem uma fluência agradável, é quase poética. Mas conforme a história foi se desenrolando, ou enrolando, percebi que o livro não chegaria a lugar nenhum. A trama lança diversos mistérios que ficam sem resposta, a protagonista toma algumas atitudes que me fizeram perder qualquer empatia por ela e o mais irritante, a autora parece evitar as cenas do conflito, como se não conseguisse escrevê-las. Julia conseguiu desandar a receita de uma maneira revoltante, pois o livro tinha muito potencial. Ela mutilou sua própria obra e isso foi imperdoável.


O Enigma do Quatro

Detestar esse livro não é uma exclusividade minha, muita gente que leu o detonou. Lançado na época  de O Código da Vinci, é mais um dos inúmeros livros que pegaram carona no sucesso de Dan Brown, mas não cumpriu nem um décimo do que prometia. Os autores realmente tem um vasto conhecimento sobre o renascentismo, assunto principal da trama, mas jogam um monte de informações em cima do leitor sem levar em conta de que há um enredo a ser seguido. Ou seja, o livro não tem ritmo algum, com um pseudo enredo que se perde naquele emaranhado de erudição.


À Sombra de Uma Mentira 

Essa foi, sem sombra de dúvida, minha pior leitura de 2016. Topei com alguns livros ruins, mas esse merece o troféu abacaxi. Também foi resenhado aqui no blog e só o terminei justamente para escrever a resenha, pois era um livro de parceria com a Record. Sempre que faço uma resenha negativa eu tento ressaltar alguns pontos positivos da obra, pois é raro um livro ser cem por cento ruim. Mas no caso desse praticamente, nada se salva. O prólogo é bem promissor, mas daí em diante o enredo vira uma confusão que parece não ter fim. A autora não consegue se encontrar. Nem sei como um livro desses foi publicado.


Fetiche

Li esse livro há muitos anos e o que me traumatizou foi o excesso de interjeições que a autora utilizava. Parecia que ninguém conseguia iniciar uma frase sem soltar um hummmm, uohuo, mmmmm. Era algo tão irritante que eu tinha vontade de atirar o livro longe e só não abandonei a leitura porque não tinha esse costume na época. Mas, além desse vício da autora, que me dava nos nervos, o livro é muito tosco. Por mim tanto faria se os personagens se explodissem porque nada na trama me cativava. E o pior: na orelha do livro diz que a autora, uma jovem modelo que de uma hora pra outra resolveu virar escritora, é considerada a nova Agatha Christie.




sexta-feira, 31 de março de 2017

Sete livros sobre relacionamento abusivo



Rose Madder

Ela, uma mulher sufocada por um casamento onde as agressões são rotina, ele um policial que se acha acima da lei. Depois de 14 anos de sofrimento, Rosie Daniels decide fugir daquela vida miserável, mesmo sabendo que não seria fácil escapar do marido. Porém ela deixa rastros e Norman, como policial, conhece os truques para segui-los. King soube muito bem abordar o tema do relacionamento abusivo e o livro é excelente nessa parte. Porém, o que faz a obra ser tão criticada pelos fãs é a inserção de elementos de fantasia, que destoaram de toda a abordagem inicial. Se a trama seguisse apenas o caminho do suspense seria um dos melhores livros do autor.


Duas Mulheres

Susan é uma mulher que não prima pela beleza, é feia e gorda e seus únicos atrativos são os belos seios. E é exatamente isso o que ela representa para Barry, seu namorado. Um par de seios e o ingresso para um mundo em que ele deseja entrar. O mundo da marginalidade, onde o pai da garota é uma celebridade. Mesmo antes do casamento ele já mostrou sua verdadeira face chegando atrasado na cerimônia porque estava transando com uma prostituta, e o que é pior, na companhia do sogro. E após trocarem as alianças, foi que Barry transformou a vida da esposa num inferno. Espancava-a diariamente pelos motivos mais banais, mal colocava comida na mesa e ainda passava noitadas na companhia de qualquer uma que lhe desse bola. Um relacionamento que se tornou uma verdadeira catástrofe não apenas para o casal, mas para toda sua família.


No Escuro

Quando conhece Lee, Catherine constata que ele é motivo suficiente para abandonar sua boa vida de solteira e mergulhar nessa relação com esse homem lindo, sedutor e carinhoso, que conquista não só a ela, mas também às suas amigas. Mas logo ele se mostra exageradamente controlador, isolando-a e transformando lentamente sua vida num tormento. E o que é pior, quando pede ajuda ninguém acredita nela. Como poderia o príncipe encantado de pouco tempo atrás ter se transformado no monstro que Catherine pinta. Sozinha, ela trava uma luta contra um inimigo que conhece como ninguém suas fraquezas e quando ele finalmente se afasta, um dos efeitos colaterais dessa relação é um abalo psicológico tão forte que a faz desenvolver um transtorno obsessivo compulsivo. E quando decide reagir e recomeçar a sua vida, Lee ameaça voltar.


Amor Amargo

Alex é uma menina carente, insegura e com baixa autoestima. Por isso, quando Colin, o atraente aluno novo, começa a lhe dar bola ela mal consegue acreditar. Encantador, divertido, sensível, um astro dos esportes. Alex parece não acreditar que o garoto está ali, querendo se aproximar dela. Quando os dois iniciam um relacionamento, tudo parece caminhar às mil maravilhas, até que ela começa a conhecê-lo de verdade. O livro fala de uma relação abusiva entre un casal de adolescentes e explora muito bem o que motiva algumas mulheres a não reagirem diante da violência, permanecendo naquele círculo vicioso.


Instinto Assassino 

Baseado num fato real que causou estardalhaço nos tribunais esse livro foi escrito pelo promotor que trabalhou no caso. Dr. Patrick Henry era um médico respeitado na cidade em que vivia e ao se casar com Cristina Henry, conseguiu esconder sua verdadeira índole durante anos. Mas isso não quer dizer que ela tenha vivido uma rotina pacífica e segura dentro desse período. Cristina passou por diversas situações em que sua vida ficou em risco sem nem desconfiar que esses acontecimentos, aparentemente acidentais, eram planejados pelo próprio marido. Henry lhe preparava armadilhas e a submetia a situações torturantes, sem que a mulher percebesse a sua autoria. Até que descobriu a verdade e aí as coisas ficaram bem piores.


A Reunião

Recuperada de uma depressão, Sabine tenta retomar sua rotina normal ao voltar para seu trabalho. Mas o convite de uma reunião entre os seus antigos colegas revolve um mistério daquela época: o desaparecimento de Isabel, sua amiga de infância, um mistério nunca solucionado. Nessa mesma ocasião ela reencontra Olaf, amigo de seu irmão desde aquela época. Olaf é charmoso, simpático, bonito e cobiçado por sua chefe. É por isso que Sabine se espanta quando ele começa a paquerá-la, justo ela, uma moça tão sem atrativos. Mas logo a moça descobre que seu novo namorado tem um lado possessivo e, temendo que o abuso psicológico evolua para a violência fica, ela decide se distanciar, o que só serve para piorar a situação.


Dormindo Com o Inimigo

Desde os anos 90 que eu sou apaixonado por esse filme, mas só há pouco tempo descobri que o livro havia sido lançado no Brasil. Sabia que era baseado numa obra literária, mas achava que nunca houvesse sido lançado aqui. Conta a história de Sara, casada com um homem metódico, controlador e muito violento que, cansada de viver naquela bolha encena a própria morte e foge. Mas seu plano não é infalível e não tarda para que o marido saia à sua procura. A essa altura ela já está envolvida com um jovem artista que representa a antítese de tudo o que a oprimia em sua relação anterior. E ser encontrada pelo marido representa não só o fim desse novo romance, como o de sua própria vida.


quinta-feira, 30 de março de 2017

Glória Mortal - J.D. Robb

Sinopse

A primeira vítima foi encontrada caída na calçada, na chuva. A segunda foi morta no próprio prédio onde morava. A tenente Eve Dallas, da Polícia de Nova York, não teve dificuldades para encontrar uma ligação entre os dois crimes. As duas vítimas eram mulheres lindas e muito bem-sucedidas, mas que mantinham relações que poderiam provocar suas mortes. Suas vidas glamourosas e seus casos amorosos eram assunto na cidade, assim como suas relações íntimas com homens poderosos.

Resenha

Depois de um ano resolvi dar andamento à série mortal de J.D. Robb, pseudônimo de Nora Roberts. Não que não tivesse gostado do primeiro livro, mas não é um tipo de série que tenha me deixado louco para ler cada volume. Como a autora é mais conhecida pelos seus livros românticos, antes de começar achava que a parte policial seria só um pretexto para mostrar o romance entre a detetive Eve Dallas e o milionário Roarke, mas a trama policial fica em primeiro plano e é muito bem conduzida, o que me decidiu a continuar acompanhando a série.

Cada vez gosto mais de Eve Dallas, uma mulher que, apesar do passado sofrido, não se vitimiza. Pelo contrário, as dificuldades pelas quais passou somente a deixaram mais forte. Exceto quando se trata de Roake, o milionário por quem se apaixona. Eve é muito cautelosa em não se jogar de vez nesse romance. Roarke é o tipo de herói idealizado, lindo, rico, poderoso e apaixonado. Ou seja, tudo o que uma mulher deseja e por isso mesmo ele parece bom demais para ser verdade. Eve ainda reluta em se envolver, mas nesse livro a achei mais solta, curtindo melhor a relação, o que não a impede de dar o sinal vermelho à cada avanço mais ousado que seu amante dê no sentido de estabelecer um compromisso.

Uma coisa que me desagrada na série é sua ambientação no futuro, a partir do ano de 2058. Apesar de ser um diferencial, esse é pra mim o maior defeito da série. Sempre que se mencionavam androides, viagens interplanetárias e geringonças esdrúxulas o clima de suspense esfriava pra mim. Sei que a mistura de policial e ficção científica já rendeu ótimos livros policiais, mas no caso da série mortal eu não curti. No primeiro livro ela pegou mais leve e muitas vezes nem parecia que a história se passava no futuro, mas nesse a ambientação me incomodou. Acho que a trinca romance/suspense/ficção científica não casou.

Quanto à trama policial, que para mim é o mais importante, desta vez achei a investigação muito mais empolgante e menos previsível que no primeiro livro. Apesar de haver mais de uma vítima o enredo fica muito mais focado na primeira delas e em sua família. A autora compõe muito bem cada personagem e explora muito bem as relações familiares. A investigação revela os podres de cada membro da família o que só vai gerando mais conflitos entre os suapeitos e a tenente Eve Dallas. O final foi bem surpreendente, apostei numa pessoa como culpada, mas a autora levou a trama para um caminho totalmente diferente do que eu pensava, o que achei demais. Fico um pouco frustrado quando acerto o assassino. Gostei da leitura, nada muito vibrante, mas escrito com competência.



terça-feira, 28 de março de 2017

Max - Sarah Cohen-Scali


Sinopse

Max é o protótipo perfeito do programa "Lebensborn" iniciado por Himmler, o comandante supremo da temível SS. Mulheres selecionadas pelos nazistas dão à luz os primeiros representantes puros da raça ariana, destinados a regenerar a Alemanha depois que a Europa estiver ocupada pelo Terceiro Reich. Konrad, como ele é rebatizado, cresce sem mãe, sem afeição ou ternura, de acordo com os preceitos educacionais nazistas. Aos 6 anos ele é levado para Kalish, uma "escola" para crianças polonesas que passaram pelo filtro racial SS. É ali que conhece Lukas, um judeu polonês rebelde, mas com todas as características físicas de um ariano e pela primeira vez na vida se sente ligado a outro ser humano. A partir desse momento, suas crenças nazistas começam lentamente a desmoronar. Max sofrerá muitas provações e passará a ver o mundo de uma forma diferente, até o final apocalíptico da Segunda Guerra Mundial.

Resenha

Quem me acompanha sabe o quanto gosto se ler sobre a Segunda Guerra Mundial, principalmente quando o enfoque é o nazismo. E fuçando num prateleira da Saraiva dedicada a esse assunto, acabei encontrando essa joia da qual nunca havia ouvido falar, mas que me fascinou pela sinopse. Como há muitos livros escritos sobre essa horrível passagem da história da humanidade, é difícil encontrar alguma obra que traga algo de realmente novo. Porém Max me surpreendeu por apresentar a história de uma criança do Reich de maneira totalmente inusitada. A começar pela abordagem nada convencional. O livro é narrado pelo próprio Max, desde antes de seu nascimento, até a idade de nove anos. 

No início o livro é uma espécie de crônica da vida no lar das crianças Lebensborn, o local onde seriam criados os representantes da raça ariana pura, preparada desde o nsscimento para servirem ao Terceiro Reich. A autora explora o drama das mães que são levadas a gerar bebês dos quais terão de se separar assim que a amamentação não for mais necessária. Expõe a crueldade daqueles que comandam o lugar, o rigor com o qual doutrinam as crianças, punindo com castigos físicos qualquer sinal de fraqueza dos futuros soldados de Hitler. Mostra a frieza com a qual eles dispõe de vidas humanas.

Max foi um personagem que em alguns momentos eu odiei, mas que muitas vezes me divertiu com sua narrativa. Na maioria das vezes com um ridículo tom de superioridade, em alguns momentos repleta de humor negro, em outras de uma inocência tocante. Uma criança condicionada a acreditar nos ideais do terceiro reich, e que acabou por se tornar uma caricatura dessa própria ideologia. Max se achava superior não apenas aos judeus, mas aos seus próprios colegas arianos. Acreditava ser o filho de Hitler. Tripudiava sobre a fraqueza de seus companheiros. Mas no fundo era uma criança sedenta de afeto, que nunca soube o que era ter um vínculo com outro ser humano, que usava sua couraça de arrogância para impedir que sua solidão abrisse uma brecha em sua alma. 

Até que com a chegada de Lukas, ao internato sua vida tem uma grande virada. O pequeno judeu, que tem as caracteristicas físicas de um ariano, opera uma grande mudança em Max. Nesse ponto, a narrativa também ganha um novo ritmo, deixando de ser um relato sobre a vida na "escola", para se desenvolver e ganhar mais ação. Pontuado por diversos acontecimentos históricos, o livro fica mais empolgante à cada capítulo, revelando os horrores da Alemanha nazista através dos olhos de uma criança que aos poucos vai perdendo a inocência. A saga de crianças perdidas num mundo despedaçado. Um livro que merece ser lido e que, acredito, seja capaz de agradar qualquer público.


sexta-feira, 17 de março de 2017

Sete autores de gente grande que se aventuraram na literarura juvenil



Harlan Coben

Nessa trilogia voltada para o público juvenil, Harlan nos traz como protagonista o adolescente Mickey Bolitar, sobrinho de seu famoso detetive Myron. Um garoto ranzinza, que consegue o quase impossível feito de não gostar do tio. Difícil compreender alguém assim, deve ser o máximo ser sobrinho de Myron Bolitar. Harlan levou para a literatura juvenil todo o seu estilo irreverente, suas tramas mirabolantes, repleta de mistérios e muitas reviravoltas.

George R.R. Martin

Na década de oitenta, muito antes do sucesso de As Crônicas de Gelo e Fogo, George R.R. Martin, reuniu os colegas de RPG e levaram suas invenções de jogos para a literatura. A série se trata de um universo de super heróis que adquiriram seus poderes após sobreviverem a um vírus logo após a Segunda Guerra Mundial,
mostrando o impacto de criaturas com superpoderes na história e com os personagens envelhecendo em tempo real. Atualmente a série de livros conta com mais de vinte volumes, mas George tem colaborado bem pouco como autor e mais como organizador.


John Grisham

O consagrado autor de suspense judicial, presenteou o público jovem com essa série narrando as aventuras de Theodore Boone, um garoto de 13 anos que sonha se tornar advogado. O garoto vive às voltas com a investigação de crimes, arriscando sua vida em aventuras repletas de mistério, ação e muitas reviravoltas. Tudo, é claro, ambientado no mundo dos tribunais.


Stephen King

Stephen King escreveu esse livro para sua filha, ainda criança, que não gostava de histórias de terror. Porém o livro é muito mais um romance jovem adulto do que um livro infantil. Uma história vibrante, cheia de intrigas, que fala sobretudo de lealdade e traição. E, como brinde ainda temos a participação mega especial de Randal Flagg, vilão que tocou o terror em A Dança da Morte e na saga A Torre Negra, desta vez na pele de um mago ambicioso que semeia a discórdia na família real para que assim continue governando nos bastidores do poder. É um livro épico, que está entre meus preferidos do King, diversão para qualquer idade.


Sidney Sheldon 

Sidney lançou essa coleção de seis volumes em 1993, dando ao público infanto juvenil uma amostra de seu talento em criar tramas que prendem o leitor. Por motivos óbvios, Sheldon deixou de lado as cenas de sexo, as paixões arrebatadoras e as intrigas políticas mas seu estilo inconfundível permaneceu em cada página. Os livros são bem ingênuos, mais infanto do que juvenis, principalmente para os dias atuais. Mas se quiserem viciar qualquer criança na leitura de thrillers, deem um desses para ela ler.


Steven James

 Fiquei pasmo ao descobrir que Steven James, autor da série policial Os Arquivos Bower, havia escrito um livro de suspense sobrenatural juvenil. Nada contra, pelo contrário, mas é tão diferente de seu estilo que fiquei impressionado com sua versatilidade. Na trama, o adolescente Daniel Biers tem uma apavorante distorção da realidade durante o velório de uma jovem que morreu afogada. A garota se levanta do caixão, agarra-lhe o braço e pede que ele descubra a verdade sobre sua morte. À beira da loucura e sem saber como lidar com sua mente cada vez mais dilacerada, Daniel precisa desvendar depressa o mistério, pois pode haver um assassino à solta em Beldon. Distorção é o primeiro livro de uma trilogia.


Dean Koontz

Dean, conhecido por suas histórias de suspense e terror não fugiu ao seu estilo ao se enveredar na literatura juvenil, mas incrementou as tramas com um empolgante ritmo de aventura. Odd Thomas é um jovem cozinheiro de uma cidadezinha californiana que tem o dom de ver os mortos. No primeiro livro da série, ele é alertado de uma grande catástrofe mundial e se lança numa aventura para impedir. É uma pena que dos sete livros da série, apenas quatro chegaram ao Brasil, mas como são histórias independentes, dá pra se ler numa boa.



terça-feira, 7 de março de 2017

Sete mulheres que sacudiram a literatura



Clarice Lispector

Nascida na Ucrânia, Clarice veio para o Brasil com dois anos de idade devido à crescente perseguição aos judeus. Ela se definia como tímida, mas ousada ao mesmo tempo, não se fazendo de rogada ao divulgar sua arte. Chegava nos jornais dizendo: "Eu tenho um conto, você não quer publicar?”. Até que uma vez levou um texto ao editor Raymundo Magalhães Jr. que olhou, leu um pedaco e disse: “Você copiou isto de quem?”. Ela respondeu: “De ninguém, é meu”. Ele disse: “Então vou publicar”. Assim começou a carreira de uma das mais importantes escritoras do século vinte. Sua obra narra principalmente a vida cotidiana simples em contraste com tramas de forte enfoque psicológico. Clarice não se considerava uma intelectual, pois se dizia movida pela emoção.


Mary Shelley

Foi numa noite de verão em 1831 que tudo começou. Sentados em torno de uma fogueira numa propriedade à beira de um lago em Genebra, um grupo formado por Lorde Byron, o jovem médico John William Polidori, amante do poeta, o escritor Percy Shelley e sua mulher Mary se divertiam lendo histórias alemãs de fantasmas, fazendo com que Byron sugerisse que cada um escrevesse o seu próprio conto sobrenatural. Nenhum deles levou à serio a brincadeira, mas Mary concebeu aí a ideia de Frankenstein, no início um história curta, mas com o incentivo do marido, se tornou um romance, publicado em 1818. Com ele, além de escrever um clássico do horror, Mary deu origem à uma criatura que se tornou um ícone da cultura pop.


Emily Bronte 

Embora mal compreendido pela crítica na época de seu lançamento, devido ao seu clima sombrio, O Morro dos Ventos Uivantes se tornou um clássico e influenciou gerações de escritores, permanecendo até hoje, 170 anos ainda muito vivo no mundo editorial. Irmã das também escritoras Charlotte e Anne Brontë, foi a quinta dos seis filhos que tiveram Patrick Brontë e Mary Branwell. Na casa dos Brontë trabalhava Thabitha, uma empregada que costumava contar histórias às crianças (que mais tarde foi homenageada com a fiel personagem Nelly Dean, na obra de Emily) e o mundo do faz de conta aumentou o interesse dos irmãos pela leitura. Embora tenha escrito alguns poemas, O Morro dos Ventos Uivantes foi o único romance de Emily, talvez a mais introspectiva, arredia e solitária das irmãs Brontë.


Charlote Bronte 

Enquanto sua irmã Emily se enveredava pelo estilo mais romântico, lúgubre e melancólico, Charlotte Bronte seguiu por um caminho mais ousado com sua obra Jane Eyre, cuja protagonista quebrou vários estereótipos. Quanto à autora, um fato que a marcou demais foi o período em que viveu numa escola do clero, enviada para lá por sua tia, onde as condições eram tão precárias que duas de suas irmãs tiveram a saúde gravemente afetada, morrendo um ano depois de tuberculose, doença que também levou Emily Bronte, sua irmã mais famosa, anos mais tarde. A vivência nesse internato foi descrita em várias de suas obras. Apesar de inovar na literarura Charlotte era politicamente conservadora, tendendo mais para a tolerância em vez de revolução. Tinha um senso moral muito forte, mas apesar de tímida, sabia muito bem defender seus ideais.


Virginia Woolf

Filha do escritor, historiador, ensaísta e biógrafo de Sir Leslie Stephen, Virgínia teve uma vida emocional conturbada devido ao transtorno bipolar, cuja origem pode ter sido tanto dos rumores de abuso por parte de seus meio irmãos, quanto de uma predisposição hereditária. Em cinco de maio de 1895, quando morreu sua mãe, Virginia, então com 13 anos, sofreu seu primeiro colapso mental. Woolf começou a escrever profissionalmente em 1900 com um artigo jornalístico sobre Haworth, a casa da família Brontë, para o Times Literary Supplement.  Ficou conhecida como uma das mais proeminentes figuras do modernismo, exprimindo em sua obra toda a amargura escondida sob o verniz da sociedade. Morreu em 1941, tendo cometido suicídio.


Simone de Beauvoir

Desde que nasceu Simone fora cumulada de carinhos da família. Por isso, ninguém poderia supor que aquela menina mimada se tornaria a maior defensora da emancipação feminina. Não aceitou casar-se, desprezava os valores da sociedade burguesa e indignava-se com o fato do aborto ser considerado um crime. Suas ideias a assomavam de maneira tão intensa qua ela sentia uma necessidade imensa de passá-las para o papel, foi quando ganhamos uma formidável escritora, além de uma intelectual, filósofa existencialista, ativista política, feminista e teórica social francesa.


Agatha Christie 

Num mundo dominado pelos homens ela se tornou um dos maiores nomes da literatura policial, alcançando o título de Rainha do Crime. Mas seu grande feito não foi apenas fazer tanto sucesso, ou mais, do que seus antecessores. Agatha revolucionou as novelas trazendo algo novo ao método investigativo, dando mais enfoque a uma sondagem psicologica do que à pistas físicas. Um fato curioso na vida da escritora, foi seu desaparecimento em 1919, logo após se separar do marido. Agatha passou dias desaparecida, até ser localizada num hotel, registrada sob o nome da amante de seu marido. A escritora alegou amnésia, mas muitos especularam se tratar de seu sumiço se tratar de um plano para se vingar do marido ou apenas um golpe publicitario. Agatha morreu em 1976 e até hoje permanece como a maior dama do romance policial.